12/01/2011

É preciso investir na educação com amor, determinação e profissionalismo

Confira a entrevista da professora Rosa Maria Dalla Costa, dos cursos de Comunicação Social e mestrado em Educação da Universidade Federal do Paraná, para o Boletim de Leitura Orientada (BOLO) do Instituto GRPCOM.

Poucos professores no Paraná são tão reconhecidos por suas pesquisas sobre a relação entre comunicação e educação quanto Rosa Maria Cardoso Dalla Costa, jornalista, mestre em Educação, doutora em Ciências da Informação e da Comunicação e pós-Doutora em Comunicação. A pesquisadora é referência nesta área, nacional e internacionalmente. Já atuou como jornalista, mas desde os 15 anos é professora, conhecendo profundamente a realidade social e educacional brasileira. Segundo Rosa, a educação brasileira está ruim, apesar do esforço individual de muitos professores de todos os níveis. Mas, com amor, determinação e profissionalismo é possível reverter esse quadro.
 
Ler e Pensar: Sua vivência no magistério está muito relacionada à percepção social que você tem. De que forma estes temas se relacionam para você?
 
Rosa Maria Dalla Costa: Vim de Santo André-SP e cresci num bairro operário. Cresci brincando na rua, andando de bicicleta, pulando amarelinha e, claro, brincando de casinha. Não tínhamos videogames nem computadores. O dia em que vi televisão colorida pela primeira vez foi uma festa. Mudei de Santo André quando casei. Coloquei todas as minhas coisas e os presentes de casamento no meu fusca azul e vim para o Paraná. Fui morar em Francisco Beltrão. De Beltrão, mudei para Curitiba e fui trabalhar em jornal. Fiz mestrado em Educação e quando acabei, mudei com o marido e os dois filhos pequenos para a França. Fomos fazer doutorado. Parecíamos uma família de retirantes naquela cidade cosmopolita. Ficamos lá quatro anos. Eu me tornei professora com 15 anos. Queria arrumar um emprego, e não ter que estudar à noite. Por isso fui dar aula no Mobral. Eu tinha que espalhar cartazes pelo bairro para montar uma turma de 30 alunos. Consegui. Tinha aluno de todo tipo: pessoas mais velhas que queriam aprender a ler, gente jovem que por ter algum problema físico ou mental não era aceita nas escolas normais, gente que se sentia sozinho na cidade grande… Foi uma super experiência. Depois, já jornalista dava aulas de língua portuguesa e sociologia. Pegava um trem em Santo André e ia até Paranapiacaba, um distrito fundado por ingleses. Quando mudei para o Paraná dava aulas numa escola sindical que atuava no meio rural falando para agricultores, índios e sem-terras de cinco estados brasileiros. Ficávamos uma semana em cada lugar, discutíamos conteúdos e metodologias, avaliávamos os resultados, planejávamos a “escola que queríamos para uma sociedade mais justa”. Depois, comecei a dar aulas para faculdades em Ponta Grossa, e após disso, em Curitiba.
 
Com uma experiência profissional tão rica, como vê o magistério hoje?
 
Acho a educação brasileira ruim, apesar do esforço individual de muitos professores de todos os níveis. Aliás, a educação em geral passa por um momento de redefinição de princípios e métodos. As mudanças sociais foram muito intensas e rápidas e a escola não conseguiu acompanhá-las. O aluno chega na escola com outras informações e não percebe em que a escola pode ajudá-lo a entender o mundo. É preciso investir na formação de professores, cobrar rigor dos alunos, agir com a máxima seriedade em cada ato cotidiano do fazer educação.
 
Ainda assim, você atua como professora. O que mantém você como docente?
 
O contato com as pessoas é sempre muito bom, cheio de novidades e coisas a serem descobertas. Mas o magistério é difícil. O dia-a-dia traz desafios difíceis de serem alcançados. Talvez o mais difícil deles seja o de motivar o aluno a pesquisar e a buscar o conhecimento. Precisamos ensinar o aluno a“aprender a aprender”, mas ele chega na universidade com uma representação de escola “bancária”, na qual o que vale é o que você escreve nas provas e não o teu caminho de descobertas. Poucos percebem o verdadeiro sentido da escola, poucos assumem um papel ativo no processo de aprendizagem. Tem também a desvalorização social. O magistério é desprestigiado socialmente. Todos dizem que é uma missão, mas ele está longe de ser uma profissão reconhecida. Enfim, é uma profissão contraditória. Mas apesar disso ainda consigo sair feliz de algumas aulas, com a sensação de dever cumprido, de encantamento com a possibilidade de ensinar o outro a compreender como as coisas funcionam. Eu me sinto realizada como professora.
 
Como vê a educação no futuro próximo?
 
Vejo com esperança. É preciso apostar na educação e trabalhar para que ela dê conta do seu papel na sociedade. Nenhuma instituição ou tecnologia substitui o papel da escola. É preciso investir e apostar na educação, individual, institucional e coletivamente. Com amor, com determinação e profissionalismo.
 
 
* Esta notícia foi publicada na edição nº 142 do Boletim de Leitura Orientada (BOLO), jornal quinzenal com sugestões para o uso pedagógico do jornal, direcionado aos professores participantes do projeto Ler e Pensar.
 
 

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